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A Vingança de Cassiano Campolina

Fui criado perto de Entre Rios e Passa Tempo, dois berços da raça campolina, numa época em que menino, pelo menos por aqueles lados, só passeava a cavalo e de fazenda em fazenda. Sinto muita saudade gostosa da Fazenda do Segredo, do meu tio e padrinho Flavinho, Flávio Farnezzi da Silva, hipólogo apaixonado e de grandes méritos. Esquício da aristocracia rural, era homem tenaz, enérgico e reto. Todo o seu vigor de homem rústico, entretanto, se transformava na maior ternura diante dos seus cavalos, principalmente dos que eram de sua especial estima. Pena que por ser pouco afeita ás saídas de seus pagos, aliás situados em região de parcas vias de comunicação, não se entrosou suficientemente com outros focos de criação e não registrou seus produtos. Mesmo assim apesar de não se ter feito notar mais, filiando-se, por exemplo ao nascente Consórcio Profissional Cooperativo de Criadores do Cavalo Campolina, criado na sua vizinha cidade de Barbacena, deixou saudoso seu nome e respeitada até hoje sua marca FF principalmente quando colocada em muares da criação de seus descendentes. Como cavaleiro era inigualável. Dosava nas rédeas a energia e o carinho e o fazia com indisfarçável satisfação. Em cima de uma das muitas e bonitas besta baias de sua reserva se transfigurava e com uma esbarrada de freio a fazia assentar-se ao chão. Em uma exposição de Barbacena foi considerado o cavaleiro número um e suas bestas, por intimação dos organizadores, tiveram de seguir viagem até o Rio de Janeiro para outra exposição que lá se realizou. Para mim, garoto da fazenda, não havia nada melhor que ouvir os comentários de meu pai e da fazendeira da toda sobre o assunto. Foi com Flávio Farnezzi que aprendi a gostar de cavalo, sobretudo do campolina, palavra desde então já tinha conotação com perfeição e superioridade. De todo cavalo bom ou bonito se devia dizer que era Campolina.

Mais tarde ouvi falar em Cassiano Campolina, antigo dono da fazenda Tanque, de Tia sinhá, minha tia avó, avó de Gastão Resende, detentor da marca CC de Cassiano Campolina. Sempre gostei de ouvir contar que no século passado o Imperador Dom Pedro II veio a Queluz de Minas, hoje conselheiro Lafaiete, para inaugurar a estrada de ferro.

Em sua homenagem foram organizados grandes festejos e incluídas, naturalmente, as famosas cavalhadas, com o indefectível combate entre cristãos e mouros. Cassiano foi encarregado de organizar o partido dos cristãos que sempre saía vencedor nesse combates simulados. No decorre da luta, porem, diante de Sua Majestade o Imperador, aconteceu o inesperado. Empolgados pelo calor da luta os mouros, esquecidos da realidade histórica, desbarataram os cristãos debaixo das respeitáveis barbas de Sua Majestade e na presença de grande público que não regateou sua vaias. Cassiano, homem orgulhoso de rijo, encheu se de brios e prometeu desforra para a primeira oportunidade. Adquiriu bons reprodutores, importou garanhões e se dedicou com afinco á produção de cavalos fortes, ardorosos, ágeis para com eles vencer os "hereges". E o próprio Imperador, tendo se feito amigo do entusiasmado fazendeiro, o presenteou com um belo garanhão da coudelaria de Cachoeira do Campo, onde havia excelentes reprodutores importados de Portugal e até descendentes de cavalos austríacos que a pedido da Imperatriz Dona Leopoldina haviam sido doados pelo Imperador da Áustria. E Cassiano Campolina morreu sem ter o prazer de com sua nova tropa derrotar os " mouros" em revanche.

Mais tarde ainda, ouvi dizer que essa estória não passa de lenda e que Cassino Campolina, apaixonado pela equinocultura, com tenacidade e amor deu os primeiros e decisivos passos para a criação da raça que tem o seu nome merecendo destaque na sua inteligente seleção, um belo elenco de matrizes nacionais e padreadores como Monarca, filho de pai andaluz, presente de um fazendeiro amigo, de Juiz de Fora, Coronel Manoel Vidal. O certo é que o episódio da cavalhada de Queluz de Minas, com a derrota dos cristãos, " sinon é vero, á bene trovato".

Quando vejo à minha frente, quer em exposições, quer nas fazendas dos proprietários, ou em fotografias, animais como Gas Marujo e Zulu, Manaus, Maioral, Garboso, Faisão, Expoente de Passa Tempo, Garoto do Bom Retiro, Apolo de Santa Maria, Baião Pagão, Alegre da Palmeira, Campo Verde Cativer, sempre me ponho a cismar. Cassiano Campolina merecia a revanche Com uma dúzia de garbosos cavalos campolinas encilhados com aparatosos arreios chapeados de prata, estribos, cabeçadas, bocais, peitorais e rédeas ornados de guisos e filigranas de metal, montados por respeitáveis cavaleiros, entraria destemido na cancha, daria as voltas de estilo e em seguida iniciaria a peleja, derrubando mouros em forma de bonecos de papelão, deitando-se sobre os flancos do cavalo buscando atingir com a espada o coração do adversário ou levando a mão no solo para soerguer o companheiro ferido e teria saído vitorioso. Quem haveria de deter os seus homens e os seus corcéis? E no final da refrega, depois de sensacional esgrima com os mouros, um cristão, talvez o próprio Cassiano, feliz na sua revanche entre os aplausos do público que o vaiara na frente do Imperador, iria carregar na garupa, de galope, Hermengarda, a donzela amada que se tornara prisioneira dos infiéis.

Por isso mesmo, quando na VII Exposição Agropecuária Estadual e III Exposição Estadual de Campeões de Minas Gerais realizada no Parque da Gameleira em 1976 vimos um campeão nacional da raça Campolina, Garoto do Bom Retiro, vencer com facilidade a prova do cavalo peão contornando balizas, saltando em disparada tambores e moirões, avançando e recuando, competindo com excelentes animais, dando provas excepcionais de agilidade, resistência, coragem e vigor, exibindo porte nobre e elegante, me reportei a Cassiano Campolina e com emoção vi na vitória do Garoto que naquele momento representava na pista todas as conquistas do cavalo Campolina, dos seus criadores e dos seus peões, uma justa vingança. Vingança que nos deu um primor de raça eqüina.

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